{"id":3249,"date":"2019-04-05T13:47:51","date_gmt":"2019-04-05T16:47:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.alumni.usp.br\/?p=3249"},"modified":"2019-04-05T13:47:51","modified_gmt":"2019-04-05T16:47:51","slug":"alumni-em-destaque-carol-pimentel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alumni.usp.br\/en\/alumni-em-destaque-carol-pimentel\/","title":{"rendered":"Alumni em destaque: Carol Pimentel"},"content":{"rendered":"<p><em>Respons\u00e1vel pela publica\u00e7\u00e3o da Marvel no Brasil, a f\u00edsica e tradutora conta sua trajet\u00f3ria<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ana Carolina Alves de Souza Pimentel, mais conhecida por Carol Pimentel, \u00e9 ex-aluna de Licenciatura em Ci\u00eancias Exatas no Instituto de F\u00edsica de S\u00e3o Carlos (IFSC-USP) e de mestrado em Estudos da Tradu\u00e7\u00e3o na Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas (FFLCH-USP). Editora-chefe da Marvel (Homem-Aranha, X-Men, entre outros) no Brasil, ela recentemente ganhou um importante pr\u00eamio na \u00e1rea, o &#8220;Trof\u00e9u HQ Mix 2018&#8221;, como melhor roteirista revela\u00e7\u00e3o. Com os quadrinhos ela acumula as fun\u00e7\u00f5es de editora, tradutora, e tamb\u00e9m roteirista. Ela nos conta nesta entrevista como foi trocar de \u00e1rea, vindo da F\u00edsica, e como seu mestrado na FFLCH lhe ajudou a atingir o sucesso na carreira, e tamb\u00e9m como foi lidar com mudan\u00e7as mesmo na etapa da gradua\u00e7\u00e3o, em que passou por outros cursos at\u00e9 se formar no IFSC e trabalhou por um tempo como diretora da Escola de Astrof\u00edsica de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3253\" aria-describedby=\"caption-attachment-3253\" style=\"width: 352px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3253 size-large\" src=\"http:\/\/www.alumni.usp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/04\/carolpimentel2-352x469.jpg\" alt=\"\" width=\"352\" height=\"469\" data-id=\"3253\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3253\" class=\"wp-caption-text\">Foto: acervo pessoal da ex-aluna<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como surgiu seu interesse por quadrinhos? Sempre se interessou pelos her\u00f3is da Marvel? Voc\u00ea sempre imaginou que poderia trabalhar com isso?<\/strong><\/p>\n<p>\u201cEu desenvolvi a paix\u00e3o pelos quadrinhos ainda crian\u00e7a. Acho que como todo pequeno no Brasil, come\u00e7amos a ler os quadrinhos da Turma da M\u00f4nica e depois vamos aprendendo sobre leitura, desenvolvendo o gosto pela coisa e a\u00ed n\u00e3o tem mais jeito. Nos anos 1980 era muito comum os pais levarem os filhos \u00e0s bancas de jornais e eu n\u00e3o escapei disso, ainda bem\u2026<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right\">Eu sempre gostei muito dos quadrinhos da Marvel e me identificava muito com um certo jovem que perdeu o tio e tinha longos di\u00e1logos internos, n\u00e3o tinha muitos amigos na escola e sofria o que hoje chamamos de <em>bullying. <\/em>Aquilo preenchia meu mundo e eu sempre acabava lendo outra hist\u00f3ria, pegando outro quadrinho e conhecendo outro personagem que depois me acompanharia por anos. Na \u00e9poca n\u00e3o era <em>cool <\/em>ler quadrinhos, pelo contr\u00e1rio, ser <em>nerd <\/em>era algo terr\u00edvel.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Guardo na mem\u00f3ria \u2013 mas o certo deveria ser nas costas &#8211; a quantidade de pux\u00f5es no suti\u00e3 que levei por estar lendo quadrinhos, e mesmo assim, nunca me intimidei e segui lendo. Os anos se passaram e a vida acad\u00eamica me afastou um pouco das HQs, afinal o tempo que passei debru\u00e7ada sobre os livros do Tipler e do Feynman enquanto estava na gradua\u00e7\u00e3o n\u00e3o me deixavam tempo livre para saltar pelos pr\u00e9dios nas aventuras do Homem-Aranha ou ouvir o SNIKT! do Wolverine.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right\">Foi mais ou menos nesta \u00e9poca que me dei conta de que o her\u00f3i que me levou a estudar F\u00edsica \u2013 o Homem de Ferro \u2013 era infinitamente melhor que eu e eu jamais viria a construir aquelas armaduras incr\u00edveis dele, ent\u00e3o fui para o \u201cespa\u00e7o profundo\u201d e mergulhei de vez na Astronomia sem pensar que algum dia voltaria para minhas antigas aventuras com meus her\u00f3is favoritos.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Na verdade, nunca tinha pensado que trabalharia com quadrinhos. N\u00e3o sei desenhar e at\u00e9 o momento n\u00e3o tinha pensado em escrever roteiros ou algo assim. O mais perto que conseguia chegar deles foi em uma exposi\u00e7\u00e3o de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que pensei em montar na Escola de Astrof\u00edsica de S\u00e3o Paulo e que n\u00e3o veio a acontecer\u2026 Mais uma vez eu me afastava deles.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right\">Como trabalhar com HQs? O que a gente faz? Eu n\u00e3o sabia direito e ent\u00e3o resolvi buscar a universidade mais uma vez. Coincidentemente, aquele era o primeiro ano em que a FFLCH abria uma turma de Estudos da Tradu\u00e7\u00e3o para a P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o e foi ent\u00e3o que vi minha chance: estudar mais profundamente o que sempre gostei e produzir algo com isso.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Conversei com o Prof. Dr. John Milton e ele aceitou me orientar com um projeto sobre HQs e eu mal podia acreditar que estava me aproximando do meu sonho mais uma vez.<\/p>\n<p>Algumas d\u00favidas surgiram sobre HQs e quando me dei por conta estava conversando com o Editor-chefe da Marvel na \u00e9poca. Tr\u00eas meses se passaram desde o nosso primeiro contato quando surgiu uma vaga para Editor Assistente que me foi oferecida \u2013 depois de alguns gritinhos eu respondi imediatamente o <em>e-mail<\/em> aceitando a vaga \u2013 e, quatro anos depois deste contato eu sou a atual Editora-Chefe da Marvel em um total de cinco anos de hist\u00f3ria de Panini. Queria criar uma m\u00e1quina do tempo para contar pra Carol dos anos 1980 que aqueles pux\u00f5es valeriam a pena, bastava ela continuar\u2026\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea ingressou em diferentes cursos de gradua\u00e7\u00e3o antes de concluir a Licenciatura em Ci\u00eancias Exatas na IFSC-USP? Foram mudan\u00e7as de \u00e1rea t\u00e3o marcantes quanto trocar, na atua\u00e7\u00e3o profissional, a F\u00edsica pelos quadrinhos? Voc\u00ea acha importante o profissional ter a coragem de mudar de \u00e1rea quando n\u00e3o est\u00e1 mais satisfeito? Foi uma decis\u00e3o dif\u00edcil?<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right\">\u201cSim, eu ingressei em diversos cursos antes de optar finalmente pela Licenciatura em Ci\u00eancias Exatas com habilita\u00e7\u00e3o em F\u00edsica, acho muito dif\u00edcil uma crian\u00e7a de 16 anos tomar a decis\u00e3o do que vai fazer para o resto da vida.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>N\u00e3o fiquem bravos pessoal que tiver 16 ou 17 anos por eu t\u00ea-los chamado de crian\u00e7a, o fato \u00e9 que \u00e9 verdade! \u00c9 muito cedo para escolhermos o que faremos da vida\u2026 \u00e9 uma decis\u00e3o permanente e que gera infelicidade extrema em muitas pessoas!<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right\">Se voc\u00ea n\u00e3o se sente feliz com o que est\u00e1 fazendo, mude. Pode parecer f\u00e1cil falar, mas na verdade \u00e9 f\u00e1cil fazer. Basta tomar a decis\u00e3o, ponderar com calma e ir tra\u00e7ando metas que o levem at\u00e9 seu objetivo.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Eu sempre tive facilidade com l\u00ednguas, o que me permitiu estudar mais e mais o ingl\u00eas e nunca me afastar disso. Durante a gradua\u00e7\u00e3o eu fiz Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica em Hist\u00f3ria da F\u00edsica e precisei traduzir muitos documentos de ingl\u00eas e franc\u00eas para entender a pesquisa e nunca me afastei da tradu\u00e7\u00e3o desde ent\u00e3o. Mesmo com uma gradua\u00e7\u00e3o em outra \u00e1rea, sempre mantive \u201co p\u00e9\u201d em outra \u00e1rea.<\/p>\n<p>Sei que existem fam\u00edlias que s\u00e3o mais duras e que cada caso \u00e9 um caso, mas um pouco de conversa sempre ajuda na hora de mostrar a insatisfa\u00e7\u00e3o que estamos tendo. Neste quesito preciso agradecer demais a minha fam\u00edlia que sempre apoiou as minhas decis\u00f5es, por mais malucas que elas tenham sido.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Qu\u00e3o importante foi o mestrado para voc\u00ea entrar em contato com o mercado dos quadrinhos e poder ingressar nele?<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right\">\u201cComo ex-aluna a escolha foi bem f\u00e1cil. Eu j\u00e1 sabia o que esperar da USP e sempre acreditei na forma\u00e7\u00e3o que recebi desta universidade, ent\u00e3o, foi por onde decidi come\u00e7ar minhas buscas\u2026 Acredito que o Mestrado foi o grande respons\u00e1vel pelo meu ingresso neste novo mercado de trabalho, n\u00e3o s\u00f3 por ter me possibilitado o contato com um profissional da \u00e1rea como descrevi anteriormente, mas tamb\u00e9m por ter me feito pesquisar profundamente o assunto.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Acho que a grande sacada das especializa\u00e7\u00f5es \u00e9 o aluno aprender de fato a pesquisar, buscar a origem das informa\u00e7\u00f5es, ver \u00e0 fundo a hist\u00f3ria de constru\u00e7\u00e3o do tema que se est\u00e1 estudando. Aprender a se virar sozinho \u00e9 o maior ensinamento de todos, espero mesmo que as pessoas vejam como isso \u00e9 importante, pois quanto mais especializados ficamos, mais abrimos portas no mercado de trabalho.<\/p>\n<p>Tudo que aprendi na minha gradua\u00e7\u00e3o anterior me possibilita compreender algumas teorias que tentam ser justificadas nos quadrinhos, melhorar a explica\u00e7\u00e3o dada pelo roteirista ou acertar os termos na hora da tradu\u00e7\u00e3o. Por exemplo em algumas express\u00f5es utilizadas pelo famoso Sr. Fant\u00e1stico \u2013 Reed Richards &#8211; do Quarteto Fant\u00e1stico, ou o Tony Stark que vive rodeado de reatores ARC e nanotecnologia; o Dr. Bruce Banner \u2013 Hulk \u2013 que foi contaminado por raios gama entre tantos outros. Muita coisa \u00e9 F\u00edsica de quadrinhos \u2013 como eu costumo chamar -, mas outras s\u00e3o baseadas na realidade e ter conhecimento na \u00e1rea me ajuda muito em meu trabalho.\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_3252\" aria-describedby=\"caption-attachment-3252\" style=\"width: 352px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-3252 size-large\" src=\"http:\/\/www.alumni.usp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/04\/carolpimentel1-352x469.jpg\" alt=\"\" width=\"352\" height=\"469\" data-id=\"3252\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3252\" class=\"wp-caption-text\">Foto: acervo pessoal da ex-aluna<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Poderia falar tamb\u00e9m um pouquinho sobre sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado na USP, que virou um livro? De onde veio a ideia para o projeto da pesquisa?<\/strong><\/p>\n<p>Tudo partiu do desejo de trabalhar com quadrinhos. Eu n\u00e3o sabia muito bem por onde come\u00e7ar minha pesquisa e a ideia inicial de projeto era criar um banco de dados de g\u00edrias dos anos 1960 e 1970 das HQs de \u00e9poca, publicadas no Brasil em materiais chamados de Bibliotecas Hist\u00f3ricas ou Cole\u00e7\u00f5es Hist\u00f3ricas Marvel. A pesquisa come\u00e7ou e, como mencionei anteriormente, algumas d\u00favidas sobre HQs surgiram e o contato com o profissional na \u00e9poca me abriu muitas outras portas. Sem querer acabei entrando em contato com os tradutores das revistas em quadrinhos da DC Comics e da Marvel Comics, foi ent\u00e3o que me ocorreu entrevist\u00e1-los para poder entender melhor o dia a dia deste tradutor. As respostas foram t\u00e3o interessantes que eu decidi mudar o projeto no meio do caminho e apresentar algo sobre o <em>habitus <\/em>do tradutor de HQs.<\/p>\n<p>O conceito proposto pelo soci\u00f3logo Pierre Bourdieu me possibilitou compreender as especificidades \u00e0s quais este profissional est\u00e1 sujeito e o que sua bagagem cultural lhe permite fazer. Todos os detalhes e as entrevistas est\u00e3o na minha disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado e aqui apresentei uma vers\u00e3o bem resumida de tudo isso.<\/p>\n<p>Pouco tempo depois da defesa uma editora se interessou pelo conte\u00fado da disserta\u00e7\u00e3o e ent\u00e3o decidimos resumir algumas coisas e apresentar algo mais pr\u00e1tico para o p\u00fablico que se interessa em traduzir hist\u00f3rias em quadrinhos. O resultado desta parceria foi o livro Tradu\u00e7\u00e3o de Hist\u00f3rias em Quadrinhos: Teoria e Pr\u00e1tica que foi lan\u00e7ado em 2018 pela editora Transitiva.\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_3254\" aria-describedby=\"caption-attachment-3254\" style=\"width: 313px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-3254 size-large\" src=\"http:\/\/www.alumni.usp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/04\/carolpimentel3-313x469.jpg\" alt=\"\" width=\"313\" height=\"469\" data-id=\"3254\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3254\" class=\"wp-caption-text\">Disserta\u00e7\u00e3o de mestrado deu origem ao livro, pioneiro no mercado sobre tradu\u00e7\u00e3o de quadrinhos<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O grande sucesso cinematogr\u00e1fico da Marvel orienta as escolhas da sua equipe para que um lan\u00e7amento de uma nova tradu\u00e7\u00e3o seja junto de um lan\u00e7amento no cinema? Voc\u00ea acredita que o sucesso das produ\u00e7\u00f5es no cinema faz aquele p\u00fablico ir atr\u00e1s de conhecer a hist\u00f3ria original nos quadrinhos?<\/strong><\/p>\n<p>\u201cOs quadrinhos e o cinema andam lado a lado, afinal a produ\u00e7\u00e3o das HQs \u00e9 que possibilitam as adapta\u00e7\u00f5es de roteiros para os filmes. O curioso \u00e9 que as tradu\u00e7\u00f5es do cinema s\u00e3o utilizadas sem consulta ao pessoal que traduz as HQs. Por que isso acontece? N\u00e3o fa\u00e7o ideia.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right\">O que importa mesmo \u00e9 que muita gente que n\u00e3o lia quadrinhos passa a se interessar pela hist\u00f3ria deste ou daquele personagem e quando a pessoa sai do cinema ela acaba indo para uma livraria ou <em>comic shop <\/em>para conhecer melhor o personagem.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Um caso interessante \u00e9 justamente o do Homem de Ferro. Este personagem sempre foi considerado \u201clinha b\u201d, nunca foi um grande atrativo para a Marvel at\u00e9 que o ator Robert Downey Jr. o revivesse nas telonas dando o enorme destaque ao filme e, consequentemente ao personagem dos quadrinhos que ficou ainda mais \u201ccanastr\u00e3o\u201d e com alguns trejeitos mais marcantes depois da interpreta\u00e7\u00e3o do ator.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Sobre o exerc\u00edcio da tradu\u00e7\u00e3o. Como a \u00e9poca influencia no estilo dela? Por exemplo, h\u00e1 preocupa\u00e7\u00e3o com o uso de g\u00edrias que podem ficar datadas para o leitor daqui algumas d\u00e9cadas?<\/strong><\/p>\n<p>\u201cDa minha parte sim. Eu me atento muito \u00e0s g\u00edrias j\u00e1 que elas foram o in\u00edcio do meu projeto. Na \u00e9poca da pesquisa entrei em contato com um texto do Prof. Dr. Paulo Ramos que mostrava a carta de um leitor carioca e sua indigna\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fala do Wolverine. Este texto sempre fica em minha mem\u00f3ria e desde que comecei a trabalhar com tradu\u00e7\u00e3o de quadrinhos eu penso nisso. Tento evitar regionalismos, mas ainda assim, algumas g\u00edrias se tornaram can\u00f4nicas nas falas dos personagens &#8211; o xar\u00e1 do pr\u00f3prio Wolverine -, que vai causar uma estranheza enorme se for trocada.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right\">Alguns tradutores s\u00e3o de outras cidades que n\u00e3o SP e RJ e algumas vezes eu recebo textos com termos que me causam surpresa. Se isso acontece eu procuro consultar outras pessoas para ver se o termo tamb\u00e9m lhes causa muita estranheza. Se sim, eu opto pela troca por um termo mais comum e menos regionalizado, afinal estamos lidando com um pa\u00eds imenso.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>J\u00e1 no caso das Cole\u00e7\u00f5es\/Bibliotecas Hist\u00f3ricas eu opto por manter os termos o mais pr\u00f3ximos o poss\u00edvel, sen\u00e3o os exatos equivalentes, para a \u00e9poca do quadrinho. \u00c9 como se voc\u00ea voltasse no tempo e tivesse a experi\u00eancia de ler naquela \u00e9poca e isso n\u00e3o um preciosismo, mas um cuidado, afinal os termos s\u00e3o os daquela \u00e9poca e podem ser verificados no original, ent\u00e3o, por que n\u00e3o seguir o original?\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ainda sobre a quest\u00e3o da \u00e9poca em que vivemos, h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o em utilizar termos mais inclusivos \u00e0s minorias, ou essa \u00e9 uma tarefa anterior, ou seja, mais do roteirista estrangeiro? Lembro-me de uma pol\u00eamica recente nas redes sociais de uma tradu\u00e7\u00e3o do Demolidor que foi \u201cacusada\u201d de associar o vil\u00e3o Wilson Fisk a um certo pol\u00edtico brasileiro conhecido por \u201cmito\u201d. Como voc\u00eas lidam com a recep\u00e7\u00e3o das tradu\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right\">\u201cA quest\u00e3o do tradutor nas hist\u00f3rias em quadrinhos \u00e9 que quanto menos se comenta sobre uma tradu\u00e7\u00e3o, mais acertada ela foi. O \u201capagamento\u201d do tradutor \u00e9 equivalente a um trabalho bem feito.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A verdade seja dita, o leitor de quadrinhos, em sua esmagadora maioria, n\u00e3o verifica quem foi o tradutor da revista que est\u00e1 lendo, o leitor s\u00f3 vai procurar saber \u201cquem foi o culpado\u201d caso ele n\u00e3o concorde com algum termo apresentado na revista, caso contr\u00e1rio ele nem quer saber como aquele material chegou at\u00e9 ele. Isso sem mencionar os ideais pol\u00edticos envolvidos ou n\u00e3o na tradu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca em que o Trump foi eleito nos Estados Unidos, houve uma s\u00e9rie de publica\u00e7\u00f5es colocando o candidato eleito como modifica\u00e7\u00e3o de algum personagem can\u00f4nico. Na Marvel Comics o personagem modificado foi o MODOC (Mecanorganismo Destinado A Ocis\u00e3o e Carnificina) que saiu na revista <em>Spider-Gwen Annual 1, <\/em>aqui no Brasil esta revista foi publicada na <em>Aranhaverso 15<\/em> da Panini e o personagem foi chamado de M.O.D.A.A.C (Mecanorganismo Operacional Destinado A Assumir o Comando) e n\u00e3o vimos nenhum jornal se preocupando com a s\u00e1tira ou o presidente se importando com o que estava sendo publicado em uma p\u00e1gina de quadrinhos.<\/p>\n<p>Fato \u00e9 que o tradutor deve se atentar ao original e adaptar <strong><em>sem <\/em><\/strong>qualquer tipo de opini\u00e3o pessoal. No caso do \u201cmito\u201d a palavra se adaptava ao original e a escolha foi bem justificada nas diversas mat\u00e9rias publicadas sobre o assunto.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 ser uma mulher num ambiente em que a maioria dos leitores ainda s\u00e3o homens? Como est\u00e1 o crescimento dos HQs entre o p\u00fablico feminino? Gosta das personagens femininas da Marvel, destacaria alguma?<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right\">\u201cAcho que ainda \u00e9 dif\u00edcil que alguns leitores aceitem uma mulher \u201cpor tr\u00e1s\u201d das HQs que eles tanto amam. O que me incomoda em rela\u00e7\u00e3o a isso \u00e9 que o g\u00eanero ainda seja discutido\u2026 Quando assumi o cargo fui alvo de diversas cr\u00edticas e desde o in\u00edcio eu pedi que procurassem ver os resultados do meu trabalho e n\u00e3o o meu g\u00eanero, mas parece que alguns ainda n\u00e3o entenderam o recado\u2026<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>No ambiente de trabalho eu sempre fui muito bem recebida pelos meus colegas tradutores\/editores que sempre se dispuseram a me ajudar e vice-versa. Aos pouquinhos fui me tornando consultora de termos cient\u00edficos e o resultado do meu trabalho pode ser visto com o cargo que assumo atualmente, acho que isso fala mais que as cr\u00edticas.<\/p>\n<p>As personagens femininas sempre existiram nas HQs, o que est\u00e1 mudando atualmente \u00e9 a forma como elas s\u00e3o representadas.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right\">Um bel\u00edssimo exemplo \u00e9 o da Jessica Drew, a Mulher-Aranha \u2013 minha personagem feminina favorita \u2013 que foi muito bem escrita por Dennis Hopeless e ilustrada por Javier Rodriguez e publicada tamb\u00e9m na revista <em>Aranhaverso <\/em>da Panini. A sensibilidade com que ela foi representada tanto graficamente quanto no roteiro s\u00e3o de uma delicadeza incr\u00edvel. Sempre que posso eu cito esta fase da personagem, pois muitas mulheres v\u00e3o se identificar com o dia a dia dessa personagem.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O mundo dos quadrinhos est\u00e1 cada vez mais bem representado, seja por mulheres, seja por minorias tanto nas p\u00e1ginas dos quadrinhos, como no cinema \u2013 veja a anima\u00e7\u00e3o <em>Homem-Aranha no Aranhaverso<\/em> de 2018 \u2013 que veio para mostrar como devemos representar todos os g\u00eaneros e de uma forma incr\u00edvel.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right\">Nos eventos de HQs independentes sempre vemos que o espa\u00e7o vem sendo mais e mais ocupado por mulheres quadrinistas e mulheres consumidoras, isso \u00e9 m\u00e1gico, pois finalmente elas est\u00e3o se sentindo acolhidas e n\u00e3o espantadas por alguns \u201cesp\u00e9cimes t\u00f3xicos\u201d que circulam por a\u00ed. Parab\u00e9ns mulherada! Voc\u00eas tamb\u00e9m s\u00e3o bem-vindas por aqui e est\u00e3o cada vez mais bem representadas.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Vou aproveitar e falar que depois de algum tempo trabalhando com quadrinhos <em>mainstream <\/em>perdi o medo de escrever roteiros e me arrisquei com uma produ\u00e7\u00e3o que come\u00e7ou independente, o <em>POV \u2013 Point of View<\/em>, com roteiro meu e arte bel\u00edssima da Germana Viana. N\u00f3s come\u00e7amos este projeto que foi recebido por um coletivo de mulheres maravilhosas, o <a href=\"http:\/\/ladyscomics.com.br\/point-of-view\"><em>Lady\u2019s Comics<\/em>\u00a0(clique aqui para acessar o <em>site<\/em>)<\/a><em>, <\/em>que nos permitiu come\u00e7ar a mostrar nosso trabalho pela internet com uma <em>webtira <\/em>semanal. O projeto cresceu e n\u00f3s conseguimos publicar a HQ f\u00edsica pela Editora Jamb\u00f4 na CCXP de 2017.<\/p>\n<p>Uma personagem negra, a Alice \u00e9 quem nos leva por uma volta na cidade de S\u00e3o Paulo em tiras que podem ser lidas independentemente ou em sequ\u00eancia (como na HQ impressa) e que vai te levar para um mergulho na vida dos paulistanos e suas loucuras em um formato <em>slice of life. <\/em>Em 2018 eu recebi o Trof\u00e9u HQMIX como Novo Talento Roteirista por esta HQ.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right\">Acho que isso diz muito sobre o futuro das mulheres nos quadrinhos\u2026 O espa\u00e7o est\u00e1 aberto, s\u00f3 precisamos explor\u00e1-lo.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<figure id=\"attachment_3255\" aria-describedby=\"caption-attachment-3255\" style=\"width: 331px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3255 size-large\" src=\"http:\/\/www.alumni.usp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/04\/carolpimentel4-331x469.jpg\" alt=\"\" width=\"331\" height=\"469\" data-id=\"3255\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3255\" class=\"wp-caption-text\">Capa do HQ. O seu roteiro foi premiado como revela\u00e7\u00e3o no Trof\u00e9u HQ Mix 2018<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Para finalizar, voc\u00ea poderia falar algum t\u00edtulo que esteja programado para ser lan\u00e7ado em 2019 no Brasil? Alguma tradu\u00e7\u00e3o da Marvel ou se voc\u00ea pretende trabalhar em algum novo roteiro&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>\u201cDe lan\u00e7amento da Panini para este ano que eu recomendo \u00e9 A Vida da Capit\u00e3 Marvel que saiu em fevereiro e As Guerras Infinitas que come\u00e7am a ser publicadas agora em abril, outros t\u00edtulos ainda est\u00e3o em discuss\u00e3o, mas teremos mais surpresas por a\u00ed\u2026<\/p>\n<p>Quanto a novos roteiros, estou preparando duas coisinhas para tentar lan\u00e7ar, vamos ver o que consigo.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Texto: Rodrigo Rosa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Respons\u00e1vel pela publica\u00e7\u00e3o da Marvel no Brasil, a f\u00edsica e tradutora conta sua trajet\u00f3ria &nbsp; Ana Carolina Alves de Souza Pimentel, mais conhecida por Carol Pimentel, \u00e9 ex-aluna de Licenciatura em Ci\u00eancias Exatas no Instituto de F\u00edsica de S\u00e3o Carlos (IFSC-USP) e de mestrado em Estudos da Tradu\u00e7\u00e3o na Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":432,"featured_media":3253,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[30,1],"tags":[],"class_list":["post-3249","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alumni-em-destaque","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/alumni.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3249","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/alumni.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/alumni.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alumni.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/432"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alumni.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3249"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/alumni.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3249\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alumni.usp.br\/en\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/alumni.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3249"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/alumni.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3249"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/alumni.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3249"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}