{"id":2482,"date":"2018-05-03T13:09:39","date_gmt":"2018-05-03T16:09:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.alumni.usp.br\/?p=2482"},"modified":"2018-05-03T13:09:39","modified_gmt":"2018-05-03T16:09:39","slug":"seminario-internacional-arte-degenerada-80-anos-repercussoes-brasil-mac-usp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/alumni.usp.br\/en\/seminario-internacional-arte-degenerada-80-anos-repercussoes-brasil-mac-usp\/","title":{"rendered":"Semin\u00e1rio Internacional \u201cArte Degenerada \u2013 80 Anos: Repercuss\u00f5es no Brasil\u201d no MAC-USP"},"content":{"rendered":"<p>Entre os dias 25 e 27 de abril, aconteceu no audit\u00f3rio do MAC-USP o semin\u00e1rio internacional \u201cArte Degenerada \u2013 80 anos: Repercuss\u00f5es no Brasil\u201d, a fim de debater as exposi\u00e7\u00f5es realizadas pelo Terceiro Reich alem\u00e3o, que tiveram o intuito de difamar a arte moderna diante do p\u00fablico, al\u00e9m de perseguir aqueles artistas e destruir v\u00e1rias daquelas obras. O semin\u00e1rio ocorreu em complemento \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o no Museu Lasar Segall intitulada \u201cA arte degenerada de Lasar Segall: persegui\u00e7\u00e3o \u00e0 arte moderna em tempos de guerra\u201d.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-2483 size-large\" src=\"http:\/\/www.alumni.usp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2018\/05\/arte-degenerada-834x469.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"360\" srcset=\"https:\/\/alumni.usp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/77\/2018\/05\/arte-degenerada-834x469.jpg 834w, https:\/\/alumni.usp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/77\/2018\/05\/arte-degenerada-300x169.jpg 300w, https:\/\/alumni.usp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/77\/2018\/05\/arte-degenerada-150x84.jpg 150w, https:\/\/alumni.usp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/77\/2018\/05\/arte-degenerada-768x432.jpg 768w, https:\/\/alumni.usp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/77\/2018\/05\/arte-degenerada-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/alumni.usp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/77\/2018\/05\/arte-degenerada-2048x1152.jpg 2048w, https:\/\/alumni.usp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/77\/2018\/05\/arte-degenerada-310x174.jpg 310w, https:\/\/alumni.usp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/77\/2018\/05\/arte-degenerada-400x225.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>O semin\u00e1rio, com boa presen\u00e7a de p\u00fablico e pesquisadores da \u00e1rea, teve quatro mesas, com dois ou tr\u00eas especialistas, inclusive estrangeiros, em cada uma. Na primeira mesa, foi poss\u00edvel acompanhar a fala da Profa. Dra. Annateresa Fabris, da ECA-USP, com o t\u00edtulo de \u201cEntre ci\u00eancia e sociologia: a arte moderna como manifesta\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica\u201d. A docente fez a rela\u00e7\u00e3o entre os discursos de eugenia em voga no governo nazista alem\u00e3o da \u00e9poca, a produ\u00e7\u00e3o moderna e compara\u00e7\u00f5es desta com a arte produzida por pessoas com condi\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas. O discurso do Terceiro Reich comparava \u2013 por meio de cat\u00e1logos da exposi\u00e7\u00e3o Arte Degenerada, por exemplo \u2013 obras de Paul Klee a de pessoas com esquizofrenia. Tal discurso pretendia desqualificar a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, como feita por (e talvez, para) os assim chamados loucos.<\/p>\n<p>O Prof. Dr. Olaf Peters, alem\u00e3o, da Martin-Luther-Universit\u00e4t Halle-Wittenberg, foi o segundo convidado da mesa a falar. Trouxe alguns estudos hist\u00f3ricos importantes sobre detalhes que levaram o Terceiro Reich a organizar as exposi\u00e7\u00f5es Arte Degenerada, assim como a Grande Exposi\u00e7\u00e3o de Arte Alem\u00e3, com as obras aprovadas pelo governo alem\u00e3o. Ambas as exposi\u00e7\u00f5es foram feitas \u00e0s pressas, obras eram escolhidas para uma ou para outra mostra em cima da hora, com crit\u00e9rios n\u00e3o t\u00e3o claros assim. O pesquisador trouxe a informa\u00e7\u00e3o de que a princ\u00edpio o expressionismo ficou a salvo dos fan\u00e1ticos nazistas. Com o desenrolar pol\u00edtico daquele regime, aproveitando-se da dist\u00e2ncia daquela arte e o p\u00fablico leigo, ou seja, o abismo que havia entre a produ\u00e7\u00e3o artistas e intelectuais de um lado e pessoas comuns do outro, usou-se da ignor\u00e2ncia e moralismo das pessoas para justificar os ataques e a organizar as exposi\u00e7\u00f5es da Arte Degenerada para o p\u00fablico. Como se sabe, o expressionismo acabou se tornando o principal alvo delas.<\/p>\n<p>A mesa seguinte, composta por outros tr\u00eas especialistas, come\u00e7ou com a fala de Paulo Knauss, doutor pela Universidade Federal Fluminense, que estuda a presen\u00e7a da arte estrangeira no Brasil. Comentou que algumas cole\u00e7\u00f5es particulares tamb\u00e9m sofreram consequ\u00eancias da guerra. Alguns donos conseguiram salvar suas cole\u00e7\u00f5es as escondendo, muitas foram doadas para museus nacionais, por vezes em outros pa\u00edses. Algumas exposi\u00e7\u00f5es puderam acontecer por conta de a\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas entre os pa\u00edses envolvidos. Durante a guerra, a Fran\u00e7a, por exemplo, come\u00e7ou a expor obras no Brasil.<\/p>\n<p>A fala do pesquisador Keith Holz, da Western Illinois University, <em>\u201cWhy Defend Degenerate Art?\u201d<\/em>, explorando a quest\u00e3o dos pa\u00edses democr\u00e1ticos terem dado apoio \u00e0 arte e aos artistas considerados degenerados, com exposi\u00e7\u00f5es logo ap\u00f3s as alem\u00e3s de 1937. Destaque para a \u201cExhibition of 20th century of german art\u201d na New Burlington Galleries em Londres. Outras diversas exposi\u00e7\u00f5es com obras \u201cdegeneradas\u201d, defendendo-as, ocorreram nos Estados Unidos em 1939 e 1940, como no San Francisco MoMA, um ano ap\u00f3s a exposi\u00e7\u00e3o de Munique.<\/p>\n<p>A fala seguinte foi da Profa. Dra. Helouise Costa, do MAC-USP, tratando de como o antimodernismo entreguerras atingiu Lasar Segall, colocando em xeque o mito da Am\u00e9rica acolhedora e livre, especialmente quando uma pintura autorretrato dele foi atacada \u00e0 navalha por defensores dos regimes fascistas em 1928. Comenta sobre o grande sucesso da exposi\u00e7\u00e3o Arte Degenerada em Munique em 1937 (o que n\u00e3o revela algo favor\u00e1vel \u00e0 arte moderna, por conta da inten\u00e7\u00e3o dela, com as obras expostas uma sobrepostas \u00e0s outras, sem cuidado, e com diversos textos \u201cexplicativos\u201d as difamando), que contou com dois milh\u00f5es de visitantes apenas nessa cidade, e o pouco sucesso da Grande Exposi\u00e7\u00e3o de Arte Alem\u00e3, das obras aprovadas pelo Terceiro Reich. Cinco obras de Lasar Segall estavam presentes na exposi\u00e7\u00e3o da Arte Degenerada em Munique. Ent\u00e3o entre as diversas contra-exposi\u00e7\u00f5es que come\u00e7avam a acontecer, destacou-se as dos refugiados alem\u00e3es, entre eles judeus progressistas, denunciando a situa\u00e7\u00e3o com com\u00edcios, passeatas, artigos, al\u00e9m das exposi\u00e7\u00f5es, para tentar convencer o p\u00fablico de que a posi\u00e7\u00e3o do Terceiro Reich era errada.<\/p>\n<p>No dia seguinte, a Profa. Dra. Maria Luiza Tucci Carneiro, da FFLCH-USP, falou sobre artistas brasileiros modernistas, e entre eles alguns eram imigrantes refugiados e judeus progressistas. Citou o autoritarismo na \u00e9poca do governo Get\u00falio Vargas e as caricaturas dele feitas pela artista imigrante Hilde Weber. Analisou ainda a import\u00e2ncia de algumas livrarias no contexto da ditadura, que listavam e divulgavam os livros confiscados pelo DOPS.<\/p>\n<p>A pr\u00f3xima convidada foi a Profa. Dra. Daniela Kern, da UFRGS, que exp\u00f4s sua pesquisa sobre Hanna Levy e Irmgard Burchard, refugiadas importantes na luta antifascista da \u00e9poca na Am\u00e9rica. Hanna foi uma historiadora da arte, incans\u00e1vel defensora da arte moderna, que abandonou seu doutorado em Munique \u2013 com um professor que viria a se tornar nazista \u2013 para fugir da guerra, e ela teceu cr\u00edticas aos historiadores da arte que ignoravam o vi\u00e9s pol\u00edtico de obras cr\u00edticas ao nazismo. Irmgard foi marchand, e depois pintora, que estudou na Fran\u00e7a. Artistas da exposi\u00e7\u00e3o da Arte Degenerada, j\u00e1 banidos da Alemanha, foram expostos na Inglaterra e tiveram uma boa aceita\u00e7\u00e3o entre os intelectuais de l\u00e1. Irmgard buscou maneiras de fazer doa\u00e7\u00f5es de dinheiro para estes artistas, o que refor\u00e7a a ideia de que ela como marchand n\u00e3o quis apenas enriquecer com a arte moderna alem\u00e3, mas tamb\u00e9m tinha preocupa\u00e7\u00f5es com os artistas diante daquela persegui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A \u00faltima fala do dia foi do Prof. Dr. Maur\u00edcio Lissovsky da UFRJ, que fez uma an\u00e1lise da arquitetura no Brasil entre 1930 e 1940. Havia muito preconceito diante das constru\u00e7\u00f5es modernistas, num discurso que criticava diversos aspectos delas como por exemplo grandes colunas vis\u00edveis em pr\u00e9dios. Coment\u00e1rios entre os defensores de uma arquitetura mais tradicional associavam aquelas constru\u00e7\u00f5es a coisas animalescas. Enquanto o jornal Meio Dia tecia duras cr\u00edticas ao Portinari, por exemplo, ele pr\u00f3prio e Le Corbusier j\u00e1 estavam fazendo muito sucesso nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>No \u00faltimo dia do semin\u00e1rio, a mesa foi aberta com a fala da pesquisadora alem\u00e3 Meike Hoffmann, da Freie Universit\u00e4t Berlin. Ela teceu um panorama hist\u00f3rico do expressionismo, relatando que o pintor do grupo expressionista de Dresden Karl Schmidt-Rottluff conheceu Hildebrand Gurlitt, historiador da arte que veio a se tornar marchand expressionista. Gurlitt foi considerado de ra\u00e7a mista pelos nazistas, pois \u00e9 descendente de judeu. Descendentes, a princ\u00edpio, n\u00e3o foram perseguidos. Apesar de algumas exce\u00e7\u00f5es e diferentes interpreta\u00e7\u00f5es sobre o posicionamento pol\u00edtico do movimento expressionista, a pesquisadora relaciona os artistas de Dresden como progressistas, e enalteceu a consci\u00eancia social de Otto Dix \u2013 este que n\u00e3o era do grupo e nasceu em uma cidade razoavelmente pr\u00f3xima a Dresden, chamada Gera. Gurlitt comprou um n\u00famero alt\u00edssimo de obras do expressionismo e organizou exposi\u00e7\u00f5es, inclusive, no come\u00e7o, sob os olhos de Goebbels, que tinha interesse nas obras e proferiu a frase \u201cQueremos tentar ganhar dinheiro com este lixo\u201d. As pinturas foram postas \u00e0 venda no pal\u00e1cio Sch\u00f6nhausen, ao norte de Berlin em 1938. At\u00e9 que, passado algum tempo, Gurlitt teve a primeira exposi\u00e7\u00e3o fechada pelo Terceiro Reich e teve de se mudar de cidade algumas vezes.<\/p>\n<p>A fala seguinte foi da Profa. Dra. Ana Magalh\u00e3es, do MAC-USP, que tratou da hist\u00f3ria da aquisi\u00e7\u00e3o de obras por museus brasileiros e o que isso significou. Por exemplo, o autorretrato de Modigliani veio para o Brasil e na \u00e9poca ficou esquecido do mundo e pouco conhecido por aqui. Falou sobre Francisco Matarazzo Sobrinho e a constru\u00e7\u00e3o do MAM-SP. Analisou ainda Margherita Sarfatti, italiana, cr\u00edtica de arte, apoiadora de Mussolini que comprou obras italianas e tentou ditar para o mundo o que era arte moderna.<\/p>\n<p>A \u00faltima fala do semin\u00e1rio ficou por conta da Profa. Dra. Claudia Vallad\u00e3o de Mattos Avolese, da Unicamp, que dedicou boa parte de sua pesquisa \u00e0 Lasar Segall, artista brasileiro inspirado inicialmente nos artistas de Dresden e Berlin, buscou, depois inspira\u00e7\u00f5es mais classicistas, como de forma, massas e volumes. Comentou sobre alguns livros que ela publicou, entre eles \u201cLasar Segall: expressionismo e juda\u00edsmo\u201d. Analisou a obra \u201cM\u00e1scaras\u201d de Segall \u2013 uma das menos conhecidas do artista, que pertenceu ao acervo particular da fam\u00edlia at\u00e9 2013 \u2013 que para ela tem um ar de mist\u00e9rio e enigma, e parece ter inspira\u00e7\u00e3o na metaf\u00edsica de De Chirico. Destacou na obra, no meio da sobreposi\u00e7\u00e3o de imagens, a presen\u00e7a da deusa Minerva e o que ela representa, que \u00e9 o imagin\u00e1rio cl\u00e1ssico, que o nazismo enaltecia, inclusive com a utiliza\u00e7\u00e3o da imagem da deusa em alguns de seus folders. Ou seja, a discuss\u00e3o em torno das cr\u00edticas de Segall \u00e0quilo. Outra das figuras na obra lembra a fase expressionista, fazendo da pintura final algo que demonstra como ele foi um artista complexo e humano.<\/p>\n<p>Na discuss\u00e3o sobre a autonomia da arte em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica, a pesquisadora apresentou uma frase de Segall em uma entrevista \u00e0 Folha de S. Paulo em 1933 de que \u201ca arte prolet\u00e1ria n\u00e3o existe, arte sempre foi individualista\u201d. Entretanto, em 1937 Segall pintou a obra \u201cPogrom\u201d, voltando a dialogar com uma quest\u00e3o mais politizada, sobre o exterm\u00ednio dos judeus.<\/p>\n<p>Texto e foto: Rodrigo Rosa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre os dias 25 e 27 de abril, aconteceu no audit\u00f3rio do MAC-USP o semin\u00e1rio internacional \u201cArte Degenerada \u2013 80 anos: Repercuss\u00f5es no Brasil\u201d, a fim de debater as exposi\u00e7\u00f5es realizadas pelo Terceiro Reich alem\u00e3o, que tiveram o intuito de difamar a arte moderna diante do p\u00fablico, al\u00e9m de perseguir aqueles artistas e destruir v\u00e1rias [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":432,"featured_media":2483,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-2482","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alumni-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/alumni.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2482","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/alumni.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/alumni.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alumni.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/432"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alumni.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2482"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/alumni.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2482\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/alumni.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2483"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/alumni.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2482"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/alumni.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2482"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/alumni.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2482"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}