Foto: Arquivo pessoal.

Depoimento: Thiago Tofoli

De jovem de escola pública e operador de telemarketing a especialista em inovação no setor alimentício e empreendedor sensorial. A trajetória de Thiago Tofoli, graduado em Ciências dos Alimentos na ESALQ/USP, exemplifica o poder transformador da universidade pública na formação de profissionais plurais e na ampliação de horizontes. Unindo a rigorosa base científica ao estudo de negócios e do comportamento humano, ele mostra como a inovação pode aproximar a ciência do cotidiano da sociedade. Neste depoimento, ele compartilha sua jornada, que demonstra a importância das políticas de permanência estudantil na USP e como redirecionou sua carreira para impactar a relação das pessoas com a alimentação.

“Entrar na USP parecia um sonho distante.

Venho de uma família humilde, com seis irmãos, e meus pais não tinham condições de pagar uma faculdade particular. Estudei em escola pública, trabalhei desde cedo e, durante três anos, vivi uma rotina intensa: pela manhã era operador de telemarketing, à tarde fazia cursinho e, à noite, estudava. Quando fui aprovado em Ciências dos Alimentos na ESALQ/USP, senti que não estava conquistando apenas uma vaga na universidade, mas a oportunidade de transformar a minha história.

Entrei acreditando que seguiria exclusivamente a carreira científica. Meu sonho era pesquisar alimentos funcionais e descobrir formas de prevenir doenças por meio da alimentação. Ainda na graduação, atuei voluntariamente em um laboratório desenvolvendo pesquisas com compostos bioativos extraídos da folha de amora branca e, posteriormente, com um extrato vegetal cicatrizante. Dediquei-me intensamente aos projetos, estudei morfologia celular na Unicamp e me preparei para os ensaios biológicos. Mas havia um obstáculo que eu não conseguia superar: desmaiava durante os procedimentos necessários para a pesquisa.

Naquele momento, enxerguei aquilo como uma frustração. Hoje, vejo que foi um dos maiores presentes que a universidade me deu.

Foi minha orientadora quem percebeu algo que eu ainda não conseguia enxergar. Ela me incentivou a explorar a indústria e a unir minha formação em Ciências dos Alimentos ao curso técnico em Administração que eu já possuía. A liberdade acadêmica da USP foi decisiva nessa mudança: aproveitei as disciplinas optativas para estudar Marketing, Logística, Empreendedorismo, Comercialização, Micro e Macroeconomia. Descobri que ciência e negócios não eram caminhos opostos. Pelo contrário, juntos poderiam ampliar o impacto do conhecimento.

A USP também me ensinou o valor do acolhimento. Durante toda a graduação morei na Casa do Estudante Universitário, recebi bolsa-alimentação e bolsa-trabalho, atuando nas bibliotecas da ESALQ e do CENA. Esse suporte tornou possível permanecer na universidade, participar de visitas técnicas, comprar livros e viver plenamente a formação que tanto sonhei.

Foi na ESALQ que encontrei oportunidades de estágio, primeiro no Laboratório de Pescado e, depois, em programas de grandes empresas. Escolhi iniciar minha carreira na Unilever e, mais tarde, construí uma trajetória de quinze anos na Seara. Participei do desenvolvimento de produtos consumidos por milhões de pessoas, de iniciativas para reduzir conservantes e tornar alimentos industrializados mais naturais, da busca por tecnologias capazes de aumentar sua vida útil, da inovação aberta, da exportação para diferentes culturas e da formação de equipes voltadas à inovação. Em cada projeto, compreendi que desenvolver produtos significava, antes de tudo, compreender pessoas.

Depois de uma carreira consolidada, senti que era hora de iniciar um novo capítulo. Decidi empreender para aproximar ciência, comportamento humano e experiências sensoriais. Nos últimos anos, tenho dedicado minha carreira a construir e difundir, de forma autoral, uma abordagem que aproxima os conceitos de Food Pairing e Food Bridge da realidade brasileira, tornando esse conhecimento científico mais acessível para empresas, profissionais e consumidores. Percebi que combinar ingredientes é apenas o começo. Meu propósito é ampliar a percepção das pessoas sobre os alimentos, estimular escolhas mais conscientes, reduzir desperdícios, inspirar a inovação e mostrar que aquilo de que gostamos, ou rejeitamos, é resultado de uma construção biológica, cultural e emocional.

Hoje percebo que meu propósito nunca foi apenas desenvolver alimentos. Sempre foi desenvolver possibilidades: de inovação, de conexão, de saúde, de consciência e de transformação humana.

Recentemente, também passei a integrar práticas de respiração consciente às experiências sensoriais, ajudando pessoas a desacelerar, estar presentes e redescobrir sua relação com a comida, consigo mesmas e com os outros. Em um mundo cada vez mais acelerado, acredito que o conhecimento científico também pode gerar bem-estar, conexão e humanidade.

Quando olho para trás, percebo que a USP não mudou o meu sonho; ela ampliou o meu propósito. Entrei querendo entender os alimentos. Saí querendo entender as pessoas por meio deles.

Mais do que formar um cientista, a USP me ensinou que o conhecimento só cumpre plenamente seu papel quando retorna à sociedade na forma de impacto. Essa continua sendo a maneira que encontrei de retribuir tudo o que recebi: aproximando ciência e pessoas para construir experiências capazes de transformar a forma como nos relacionamos com a alimentação, com os outros e com o mundo.”

O Escritório Alumni USP agradece a participação e parabeniza o egresso por sua trajetória inspiradora na inovação e na ciência de alimentos. Sua dedicação em aproximar o conhecimento científico do cotidiano da sociedade e em transformar a nossa relação com a alimentação serve de exemplo para toda a nossa comunidade acadêmica e para os futuros cientistas do país!